Há mudanças que acontecem diante dos nossos olhos e, ainda assim, levam anos para serem percebidas.

THE DAILY HUMAN

A mesma mão

A primeira vez que reparei de verdade na mão da minha mãe foi porque ela já não parecia a mesma.

Ela estendeu a mão para pegar uma xícara de café e, antes que eu olhasse para o rosto, olhei para ela.

A pele parecia mais fina. As veias apareciam com facilidade. Os nós dos dedos estavam mais salientes. Havia pequenas manchas que eu não lembrava de ter visto. Foi estranho.

Passei a infância segurando aquela mesma mão sem pensar nela. Era simplesmente a mão da minha mãe. Naquele dia, parecia outra.

A primeira coisa que pensei foi:
– Como ela envelheceu.
Mas fiquei olhando. Será que tinha sido ela que mudara tanto…
…ou eu é que nunca tinha olhado de verdade?

A xícara continuava na mão dela. E foi aí que a impressão mudou. Eu tinha olhado para aquelas marcas como quem vê desgaste. Só que aquela era a mesma mão que eu conhecia desde criança.

As marcas não tinham interrompido aquela história. Eram parte dela.
Olhei para as minhas. Ainda não tinham o mesmo mapa.

Minha mãe tomou mais um gole de café. Olhei novamente para a mão dela.
Dessa vez, já não parecia outra.

  • Era o jeito de andar

    Antes de qualquer palavra, duas pessoas já podem ter começado uma conversa.

  • Ainda inteiro

    Nem todo cansaço chega quando a gente espera. E nem toda disposição precisa parecer energia.

  • A buzina

    A pressa de alguém pode chegar ao nosso corpo antes mesmo de entendermos de onde ela veio.

  • Depois eu vejo

    Às vezes, adiar uma coisa dá mais trabalho do que finalmente encarar aquilo que estamos evitando.

  • E lembrei dele

    Alguns cheiros parecem guardar lugares, pessoas e épocas inteiras sem pedir licença à memória.